O digital e o pessoal da festinha
Chega uma hora da maturidade profissional que a gente decide que não quer ter chefe pra quem temos que explicar o que é uma tag, como funciona um adserver ou o que é link patrocinado.
O problema é que o mercado está repleto do “pessoal da festinha” – aqueles que sabem investir bem a grana da empresa numa orgia bacanuda, contratar celebridades, pagar uma fortuna por um show privado e ganhar alguns espaços nas colunas sociais (com a marca aparecendo bem discreta atrás do nome da fulaninha vestindo D&G), que gloriosamente vão apresentar como resultado de mídia. Geralmente é assim: “se fôssemos comprar este espaço, teríamos que pagar uma fortuna, Sr. Presidente!”. E daí, como ningém tem como provar nada mesmo, todo mundo acredita. E tudo fica como está. E vamos liberando o pagamento que o fornecedor das pulseirinhas ligou cobrando!
E o que fica depois da festa? Nada! Três dias depois, nada de consumidor! Uma semana depois, nada de vendas; mas a campanha está no ar. Um mês depois, campanha fora do ar! Porque não sobrou grana pra comprar mais espaço nem no “Fala que eu te escuto”! Mas sobraram as contas, ora pois! Afinal de contas, a festa se vê, é real, mas o HTML, não! Então a web não precisa de conta! E colocam tudo no mesmo saco: tudo vira Internet! Então, no restante do ano, sobra para o digital ter a função de manter o tema aquecido. “Ah, fala com o pessoal que mexe com site”, grita o outro, mostrando a foto com a Preta Gil. E ainda tem o coitado do gerente de varejo que sofre pra gerar walk in nas lojas. E graças a isso tantos bonecos infláveis estão empregados por aí! Viva o pessoal da festinha, que movimenta a indústria dos bonecos infláveis e das gráficas! É o “marketing oba-oba”.
As empresas estão ávidas por profissionais com background em marketing digital. O fato é que elas não sabem o que fazer com eles! Querem mídias sociais, mas ninguém tem um perfil em uma rede social. Opa! Achou algum? Hummm… A última tuitada do cara foi há 8 meses e serviu pra escrever “oi pessoal, tô no Twitter!”.
Você falou em choque de cultura? Ah, que é isso, rapaz!? “Vamos juntos, porque trabalhar em silos não tá com nada!” Então eu digo: a festinha até que é boa, ajuda na tática, mas só a festinha complica, sabe como é? Precisamos falar de business tranformation e de uma nova cultura que é movida por mudanças de comportamento no consumo de mídia por aqueles que são responsáveis pela existência do marketing: os consumidores. Por eles somos e por eles investimos! Se temos uma nova realidade que se sustenta justamente nas carências e fraquezas de um modelo anterior, que já é ultrapassado, por que insistimos no obsoleto e não adotamos o novo? A beleza do processo está justamente nisso: aproveitar o que é bom e mudar o que precisa ser renovado! Então me diga: quem está sendo resistente? Pra que esse medo!?
E pensando nisso tudo você sugere uma estratégia integrada, tendo a web como plataforma principal. No fundo, você ainda tem esperanças. “Pare com isso! Você está vendo a Internet como mídia de massa!? Tá louco!?”, pergunta assustada a cidadã na ponta da mesa, que pensa que esse negócio de marca nas mãos do consumidor é uma grande bobagem. E os próximos 5 segundos se transformam numa efusão silenciosa de manifestos. E daí você engole seco, mesmo sabendo que a melhor saída é a combinação dos meios, mesmo tentando explicar que fazer marketing digital não é apenas criar meia dúzia de banners e aprovar um plano mirrado de mídia online. Decisão: faça um hotsite e aproveite pra colocar o cupom em pdf na página, como o “pessoal” pediu, pra que os participantes imprimam e enviem pelos Correios. Afinal de contas, você não vai ser reativo (não é mesmo?) e o site só vai servir pra abrigar a campanha, explicar como tudo funciona, gerar engajamento, hospedar a promoção e publicar o regulamento. Só isso. Então fique esperto aí, rapaz! Seja um agente de transformação, mas as empresas não estão entendendo bem a sua real proposta e competência!
E se lá no final ainda te acusarem de falta de coleguismo, porque “ninguém entendeu até agora o que você faz com esse negócio de Internet”, pode ter certeza de que eles continuam olhando pro próprio umbigo, achando a festinha o máximo e ansiosos pra convidar uma celebridade para fazer o lançamento do próximo produto. Afinal de contas, tivemos uma final digital emocionante no BBB, o Dourado ganhou, mas a novela continua dando 32 pontos no IBOPE e… Ah, a Ivete!? Nossa, ela tem a cara do produto que vão lançar no ano que vem! E a mecânica de participação vai ser feita pela web, mas isso é apenas um detalhe…
“Hei rapaz, que tá fazendo aí ainda? Liga já pra Ivete!”.


