Os fenômenos digitais de hoje irão moldar as tendências de amanhã Edmar Bulla

O digital e o pessoal da festinha

Chega uma hora da maturidade profissional que a gente decide que não quer ter chefe pra quem temos que explicar o que é uma tag, como funciona um adserver ou o que é link patrocinado.

O problema é que o mercado está repleto do “pessoal da festinha” – aqueles que sabem investir bem a grana da empresa numa orgia bacanuda, contratar celebridades, pagar uma fortuna por um show privado e ganhar alguns espaços nas colunas sociais (com a marca aparecendo bem discreta atrás do nome da fulaninha vestindo D&G), que gloriosamente vão apresentar como resultado de mídia. Geralmente é assim: “se fôssemos comprar este espaço, teríamos que pagar uma fortuna, Sr. Presidente!”. E daí, como ningém tem como provar nada mesmo, todo mundo acredita. E tudo fica como está. E vamos liberando o pagamento que o fornecedor das pulseirinhas ligou cobrando!

E o que fica depois da festa? Nada! Três dias depois, nada de consumidor! Uma semana depois, nada de vendas; mas a campanha está no ar. Um mês depois, campanha fora do ar! Porque não sobrou grana pra comprar mais espaço nem no “Fala que eu te escuto”! Mas sobraram as contas, ora pois! Afinal de contas, a festa se vê, é real, mas o HTML, não! Então a web não precisa de conta! E colocam tudo no mesmo saco: tudo vira Internet! Então, no restante do ano, sobra para o digital ter a função de manter o tema aquecido. “Ah, fala com o pessoal que mexe com site”, grita o outro, mostrando a foto com a Preta Gil. E ainda tem o coitado do gerente de varejo que sofre pra gerar walk in nas lojas. E graças a isso tantos bonecos infláveis estão empregados por aí! Viva o pessoal da festinha, que movimenta a indústria dos bonecos infláveis e das gráficas! É o “marketing oba-oba”.

As empresas estão ávidas por profissionais com background em marketing digital. O fato é que elas não sabem o que fazer com eles! Querem mídias sociais, mas ninguém tem um perfil em uma rede social. Opa! Achou algum? Hummm… A última tuitada do cara foi há 8 meses e serviu pra escrever “oi pessoal, tô no Twitter!”.

Você falou em choque de cultura? Ah, que é isso, rapaz!? “Vamos juntos, porque trabalhar em silos não tá com nada!” Então eu digo: a festinha até que é boa, ajuda na tática, mas só a festinha complica, sabe como é? Precisamos falar de business tranformation e de uma nova cultura que é movida por mudanças de comportamento no consumo de mídia por aqueles que são responsáveis pela existência do marketing: os consumidores. Por eles somos e por eles investimos!  Se temos uma nova realidade que se sustenta justamente nas carências e fraquezas de um modelo anterior, que  já é ultrapassado, por que insistimos no obsoleto e não adotamos o novo? A beleza do processo está justamente nisso: aproveitar o que é bom e mudar o que precisa ser renovado! Então me diga: quem está sendo resistente? Pra que esse medo!?

E pensando nisso tudo você sugere uma estratégia integrada, tendo a web como plataforma principal. No fundo, você ainda tem esperanças. “Pare com isso! Você está vendo a Internet como mídia de massa!? Tá louco!?”, pergunta assustada a cidadã na ponta da mesa, que pensa que esse negócio de marca nas mãos do consumidor é uma grande bobagem. E os próximos 5 segundos se transformam numa efusão silenciosa de manifestos. E daí você engole seco, mesmo sabendo que a melhor saída é a combinação dos meios, mesmo tentando explicar que fazer marketing digital não é apenas criar meia dúzia de banners e aprovar um plano mirrado de mídia online. Decisão: faça um hotsite e aproveite pra colocar o cupom em pdf na página, como o “pessoal” pediu, pra que os participantes imprimam e enviem pelos Correios. Afinal de contas, você não vai ser reativo (não é mesmo?) e o site só vai servir pra abrigar a campanha, explicar como tudo funciona, gerar engajamento, hospedar a promoção e publicar o regulamento. Só isso. Então fique esperto aí, rapaz! Seja um agente de transformação, mas as empresas não estão entendendo bem a sua real proposta e competência!

E se lá no final ainda te acusarem de falta de coleguismo, porque “ninguém entendeu até agora o que você faz com esse negócio de Internet”, pode ter certeza de que eles continuam olhando pro próprio umbigo, achando a festinha o máximo e ansiosos pra convidar uma celebridade para fazer o lançamento do próximo produto. Afinal de contas, tivemos uma final digital emocionante no BBB, o Dourado ganhou, mas a novela continua dando 32 pontos no IBOPE e… Ah, a Ivete!? Nossa, ela tem a cara do produto que vão lançar no ano que vem! E a mecânica de participação vai ser feita pela web, mas isso é apenas um detalhe…

“Hei rapaz, que tá fazendo aí ainda? Liga já pra Ivete!”.

Comentários: (16)

Angélica Hamar 17/08/2011 às 19h30

isso é que é mostrar background!!!! Parabéns!!!!

Pra que viver do passado? | Sulfúrico 11/04/2011 às 17h58

[...] A TV foi tão importante na segunda metade do século passado (isso, eu disse século passado!) que criou um residual de comportamento indefectível. Mas é importante situar contextualmente que a TV como símbolo de diferenciação, status, elemento icônico agregador da família, símbolo e porta-voz das massas, pertence a um passado no qual já não mais estamos, no qual não existia controle remoto, nem Internet. Miopia, zona de conforto, modelos de remuneração, bonificação por volume, ego… As razões são muitas, mas o que talvez mais me convence é que muitos publicitários estão ainda presos ao mindset de glamour, aos grandes investimentos, às campanhas memoráveis, ao primeiro sutiã, à W/Brasil, defendendo uma postura old school. [...]

edmarbulla 27/05/2010 às 18h46

Oi Fábio, claro que dá! Certa vez fui dar uma palestra para pequenos e médio empresários na FIRJAN para falar justamente das oportunidades digitais disponíveis para esses empreendedores. Foi fascinante ver como eles saíram de lá com uma visão de que o mundo digital é acessível, a partir do momento em que você foca nas necessidades dos consumidores e no que eles esperam. O digital acaba sendo mais uma ferramenta do mix de marketing disponível e isso torna a coisa ainda mais interessante, porque é mais um excelente recurso de comunicação para quem quer se aventurar por esse universo. Abraço, Bulla.

Fabio Meneses 27/05/2010 às 16h31

Caro Bulla, imagine então aquele clientezinho de nada, que não pode pagar a Ivete, nem o Dourado, nem mesmo um folderzinho para o lançamento de um produto ou serviço... Dá pra passar do Neanderthal para o digital, sem fazer pataquadas? Gostaria de saber sua opinião se começar pelo marketing digital é um caminho...

Carolina Gavazzi 05/04/2010 às 23h18

obrigada! ;)

edmarbulla 05/04/2010 às 23h04

Fala, Crocas! Tudo bem? =) Bom humor nos garante o dia-a-dia, certo amigo? Abraço.

Christian Rôças 05/04/2010 às 22h59

ufa. Valeu, Bulla, ainda bem que nos resta bom humor []s Crocas

edmarbulla 05/04/2010 às 14h01

Valeu, Cris! De pouco em pouco vamos catequizando a galera! Abraço.

Cris Rodrigues 05/04/2010 às 12h27

SENSACIONAL. Cobriu com humor uma triste realidade daqueles que curtem o 'viralzinho'. É sobre o que tento escrever de vez em quando em www.digitalimpacts.blogspot.com

edmarbulla 03/04/2010 às 10h57

Cris, muito obrigado pela contribuição. Concordo 100%! Beijos.

Cris Bussab 03/04/2010 às 00h21

Adorei a realidade do Post. realmente vivemos cada vez mais no momento no qual todos querem fazer, mas nao realmente FAZER e assim os profissionais serios sao assolados por situações desconfortáveis em uitas vezes pouco profissionais quando o assunto é digital. Acho que muita empresa ainda nao entendeu que comunicação digital não é futuro, é presente. Nao entenderam quem as pessoas envolvidas não sao seus sobrinhos de 15 anos fazendo home page da firma. Tem gente boa fazendo e fazendo direito.

edmarbulla 01/04/2010 às 22h12

Gosto da idéia do manifesto! =)

Quando a publicidade é uma mentira | boombust 01/04/2010 às 14h34

[...] manhã peguei no seu perfil no Twitter – @edmarbulla – o link que me levou ao post  O digital e o pessoal da festinha. Achei tão apropriado para um 1º de abril falar das mentiras que as agências contam para as [...]

Bruno Fonseca 01/04/2010 às 12h42

O que restou para ser dito depois disso tudo? Quem não se viu na mesa de reunião ou publicando um pdf ou ainda erguendo um hotsite apenas para regulamento e outras tranqueirinhas. Faço deste o meu desabafo profissional ... acho que precisamos de um manifesto!

uberVU - social comments 01/04/2010 às 10h49

Social comments and analytics for this post... This post was mentioned on Twitter by edmarbulla: Desabafo digital contra o marketing oba-oba: http://migre.me/sRL8...

Tweets that mention O digital e o pessoal da festinha | Sulfúrico -- Topsy.com 01/04/2010 às 01h00

[...] This post was mentioned on Twitter by Edmar Bulla, Edmar Bulla. Edmar Bulla said: Post mega #sulfurico: o digital e o pessoal da festinha! http://migre.me/sRL8 [...]

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