Os fenômenos digitais de hoje irão moldar as tendências de amanhã Edmar Bulla

Pra que viver do passado?

14/07/2010 edmarbulla - Comportamento, Comunicação, CRM, Marketing

Muita gente me pergunta se sou contra a TV. A resposta é não. Acredito que todos os meios possuem suas características próprias e desempenham um papel importante no mix de comunicação, incluindo aqui todos os esforços de varejo. O que sou contra, de fato, é em relação à mentalidade assaz arcaica e pouco evoluída sobre o uso desse veículo.

E por que isso acontece? Creio que todos concordamos que a TV foi um elemento absolutamente icônico do século XX. É inquestionável sua influência no comportamento da população. No entanto, se fizermos uma avaliação partindo de dois cortes temporais, a TV em 1960 e a TV em 2010, vamos perceber que temos 50 anos que nos separam. Ao mesmo tempo, a indústria publicitária não parece ter caminhado, muitas vezes, sequer uma década, em sua mentalidade.

Já se tornou clichê afirmar que a multicanalidade, a co-criação e os meios digitais são a realidade de comportamento e consumo de mídia. No entanto, é impressionante ver como a maior parte das agências ainda continua defendendo o posicionamentos de um produto a partir de campanhas publicitárias, esvaziando a promessa principal de produto e inflando egos, cumprindo a função de comunicar, para grandes marcas, com base e apostas de risco em campanhas pensadas e feitas para TV. Pior ainda são os profissionais de marketing que estão encarregados de liderar processos de inovação e mudança, que corroboram a situação. Os consumidores, que deveriam ser surpreendidos, acabam sendo os geradores das grandes idéias, dos movimentos, das tendências, criando meios de engajamento próprios com suas marcas preferidas. Existe então uma grande confusão e inversão de papéis.

Como obter sucesso nesse contexto? Como ser uma marca admirada e amada pelos consumidores? Qual o papel dos milhões investidos em pesquisa, a partir do momento que se mostra, muitas vezes, somente aquilo que se quer ver? Infelizmente, ainda se faz muito marketing para as próprias empresas e não para os consumidores.

A TV foi tão importante na segunda metade do século passado (isso, eu disse século passado!) que criou um residual de comportamento indefectível. Mas é importante situar contextualmente que a TV como símbolo de diferenciação, status, elemento icônico agregador da família, símbolo e porta-voz das massas, pertence a um passado no qual já não mais estamos, no qual não existia controle remoto, nem Internet. Miopia, zona de conforto, modelos de remuneração, bonificação por volume, ego… As razões são muitas, mas o que talvez mais me convence é que muitos publicitários estão ainda presos ao mindset de glamour, aos grandes investimentos, às campanhas memoráveis, ao primeiro sutiã, à W/Brasil, defendendo uma postura old school.

O passado glorioso da publicidade, alicerçado na genial idéia criativa para um grande comercial de TV, no copyright e na arte como vedetes, sem dúvida, é brilhante, mas podemos (e devemos!) construir uma nova história. Em tempos de inovações tecnológicas tão voláteis, a realidade do cross media e especialmente dos novos comportamentos de consumo de mídia dos consumidores são os elementos que devem guiar toda a estratégia de comunicação das marcas.

Conteúdo e serviços são inegavelmente a mensagem publicitária. Os consumidores são os próprios veículos. As marcas estão nas mãos dos consumidores. Saber fazer uso de tudo isso não é fácil, mas garanto que requer flexibilidade, humildade e resiliência, antes de mais nada. Muitas campanhas já deveriam ser somente suportadas (e não mais definidas) por TV, a partir do momento que são geradas nos meios digitais. E não existe demérito algum nisso. Muito pelo contrário, porque o alicerce é tão importante quanto o teto em uma construção e a riqueza da comunicação é fazer uma orquestração perfeita dos meios, independentemente em qual posição se atue.

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Comentários: (8)

Por que o Marketing Digital é tão importante para a sua empresa? | Sulfúrico 05/05/2011 às 16h24

[...] de qualquer empresa: um ponto em que é preciso mudar radicalmente a fim de crescer, sob o risco da empresa se tornar obsoleta. O aspecto digital tornou-se absolutamente central para a vida dos consumidores e precisamos [...]

Georgeumbrasileiro 14/08/2010 às 11h28

Excelente texto! @Guilherme, acho na verdade excelente, para não dizer revolucionário que consumidores cada vez mais adquiram voz e poder para ditar e trilhar seus próprios caminhos! Isso só contribui para que empresas ajam de maneira cada vez mais responsável. Em suma, do ponto de vista empresarial "é ruim, mas é bom!" :-)

edmarbulla 16/07/2010 às 01h36

Oi Fabiano, concordo contigo. Aliás, se o texto é bom, divide com a gente! ; )

edmarbulla 16/07/2010 às 01h35

Bruno, gosto dos seus comentários porque eles têm um "quê" de sulfúricos! rsrsrsrs. Vamos juntos contribuir pra mudança, meu caro! Vamos juntos! =)

edmarbulla 16/07/2010 às 01h34

Fala, Gui! Também estava com saudade dos seus comentários! Apareça sempre.

Guilherme Dorf 15/07/2010 às 10h09

Bulla, que bom ver que você voltou a postar! Concordo e discordo. Primeiramente, acho que devemos separar o cenário brasileiro (e talvez latino-americano) do americano e do europeu. Aqui, a penetração da TV Aberta é algo que praticamente não podemos descartar. Apesar de todo o crescimento de outras mídias, especialmente da internet, se o objetivo da campanha é o aumento direto nas vendas A TV Aberta atinge um público de praticamente 180 milhões, ao invés de 66 milhões (Internet, na melhor das hipóteses.) Também discordo que o cenário não tenha mudado tanto. Embora tenhamos um investimento ainda astrônomico em TV, creio que na última parte do século, as empresas mudaram a mentalidade no sentido de usar a TV como alicerce e outras mídias como suporte. Eu até vejo como uma tática interessante já que na TV você pode buscar algo mais "quadrado" e em outras mídias ousar e arriscar mais, procurando elevar o brand awareness em detrimento da concepção “varejista” de simplesmente vender. Pra não dizer que eu só discordo :), acho que você tem toda razão quando diz que os consumidores que estão liderando o processo de inovação. É muito triste perceber que nós só acordamos para uma situação nova quando os consumidores nos alertam que estão suscetíveis à ela. Em um mundo ideal, nós que deveríamos estar conduzindo o processo e ditando os caminhos possíveis para que eles possam trilhar e se surpreender. Abs

Bruno Fonseca 15/07/2010 às 00h06

Concordo contigo Bulla, as emissoras de Tv no Brasil são compostas em grande parte por profissionais analfabetos digitais, sem disposição ou coragem para abrir um CANAL DE RETORNO com seu consumidor. Hoje se discute muito em novas formulas de remuneração com aplicações de interatividade na TV DIGITAL mas no final, eles aceitam a nova embalagem (tecnologia) mas continuam querendo sempre entregar o mesmo produto ao mercado. Seja Tv Digital, Internet, 1Seg, etc ... para eles a interatividade só vai existir se "ela" falar o que eles querem ... e ainda se eles puderem editar antes de ir ao ar com a logo AO VIVO na tela!

Fabiano 14/07/2010 às 20h15

Isso me lembra de um texto que traduzi há muuuitos anos. Era sobre mudanças e, dentre outras coisas, dizia que o mais difícil em uma mudança não é começar algo, é terminar algo.

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